Mensagens

A Escolha de Ser Livre - Liberi di Scegliere

Imagem
A 'ndrangheta é uma das organizações mafiosas mais poderosas do mundo e está presente nos cinco continentes. Nasceu na Reggio Calabria e mantém-se através de gerações. Ou seja, os filhos herdam a posição do pai dentro da máfia, fazendo parte de um esquema organizado e regido por leis internas onde os descendentes pouco mais fazem do que seguir as pisadas dos pais. Em 2011, o presidente do tribunal de menores de Reggio Calabria decidiu fazer algo que nunca havia sido feito: criar um mecanismo que permitisse aos mais novos serem "salvos" desse desse destino fatídico que, mais cedo ou mais tarde, se resumia à prisão ou à morte. O filme "Liberi di Scegliere" , disponível nalgumas plataformas (em português com o título "Filhos de 'Ndrangheta"), de 2018, conta a história de como nasceu esse programa na Reggio Calabria. O filme parte de uma história verídica, alterando o nome das personagens para proteção de identidade, e tem como protagonista o juiz Mar...

Vulnerável VII

Imagem
- Não sei se deva ficar contente por estares a trabalhar - ele beija-me o pescoço - Antes era mais divertido... Vinhas mais vezes. Ele aperta-me no seu abraço e eu sinto a sua mão na minha barriga. - Venho sempre que posso... praticamente já me mudei para aqui. E, digamos, que não estamos em tempos- - Já imaginaste como seria um filho nosso? A pergunta dele ecoa pelo quarto. Por vezes, não sei como é capaz de me dizer estas coisas, com uma facilidade que me desarma. - Sabes que não penso nisso... - acabo por lhe dizer. Sinto o seu rosto junto ao meu e o seu cheiro deixa-me inebriada. - Seria forte... Uma força da natureza. - Irascível como tu. Ele sorri. - Mas doce como a mãe. Beijo-lhe a face - Teria os teus olhos? - Não... teria os teus grandes e bonitos olhos. - Não... não me digas que iria herdar de ti o mau feitio. Ele solta uma gargalhada. - Mas...ouvir-te-ia.  Nunca pensei em ter filhos. E, apesar de o amar, nunca pensei nessa possibilidade. Permanecemos juntos como se tudo ...

Vulnerável VI

Imagem
Em Novembro não se encontra muita gente na praia. O Estoril apresenta-se estranhamente calmo, com poucas pessoas. O céu está cinzento, mas não parece que vá chover. O vento é capaz de gelar as orelhas, mesmo assim, arriscamo-nos a ir para a areia. Esta é uma das raras vezes em que ele usa uma roupa de civil.  Deixou-me surpresa quando me acordou a meio da manhã e disse que era bom sairmos de casa. Ainda mais surpreendida fiquei quando vi as horas, passava das onze da manhã e vi-o descontraído. Afinal, era verdade, pelo menos o telefone não tinha tocado, ele estava mesmo fora da unidade hoje. Ainda pensei que isso mudasse até sairmos de casa e o toque de telefone desse o sinal de que teríamos de adiar o que quer que fôssemos fazer. Mas, ao contrário de todas as expectativas, o telefone não tocou. O seu blusão castanho quase que o faz passar despercebido, no entanto, aos meus olhos, ele mantém uma feição inconfundível. Fixado no mar, o seu olhar está perdido e pergunto-me no que esta...

Vulnerável V

Imagem
A sua respiração junto ao meu corpo faz-me ganhar alguma consciência. Levo a minha mão ao seu cabelo e por aí passeio os meus dedos. O seus lábios junto à minha pele deixam alguns beijos, o que me acorda do meu torpor. - É melhor vestires-te. Não vá alguém entrar. Ele acena ao de leve. - Não devíamos ter feito isto aqui - a sua voz baixa desperta-me ainda mais os sentidos. Ele tem toda a razão. - Pois não... Ele ergue-se e veste as calças, procurando depois pelo seu casaco. Ganho forças para me sentar na mesa e descer à procura da minha roupa no chão. Vestimo-nos em silêncio. Enquanto me volto a sentar na beira da secretária, vejo-o a pegar nos papéis que tinha trazido. Ele coloca-os junto a mim. Olhamo-nos por um momento e abraço-o. Ele corresponde, deixando-me segura daquilo que tínhamos feito. - Apenas tive os pesadelos contigo. Nem quando estou sozinho, eu os tenho - fecho os meus olhos - isso deixou-me um bocado maluco e não soube... não sei bem lidar com isto. - Não os tens com o...

Vulnerável IV

Imagem
- Tens de ir, não há mais ninguém. Esta é a tua oportunidade. - Mas que raio vou pra lá fazer?! - quando fico nervosa tenho o péssimo defeito de explodir por tudo e por nada... Ainda mais se me querem pressionar a fazer algo que não desejo. E estar perto daquela unidade é mesmo aquilo que eu não quero... de todo. - É uma ordem. Não há aqui mais ninguém e só quero que vás perceber porque razão as pessoas se juntaram ali à volta da unidade. Merda. Porque é que me estão a colocar nesta situação? Há já algum tempo que eu queria sair daquele jornal e fazer outras coisas. Mas, vai-se lá saber porquê fui ficando... Mesmo a tempo de me colocarem nesta trapalhada. Suspiro e aceno. Olho para os papéis que estão na secretária de um outro jornalista que segue as ações do exército e leio o cabeçalho: "A Unidade Bombista". Congelo. Leio as primeiras linhas do rascunho e sei que o jornal vai publicar aquilo... Mesmo que só tenha ouvido um lado da história. Em menos de nada, estou onde o jor...

Vulnerável III

Imagem
As notícias foram circulando em catadupa. As pessoas protestavam, faziam patrulhas, o jornal estava em polvorosa... Fui percebendo que as coisas se tinham precipitado através dos meus colegas. Eu, agarrada à estúpida secção internacional, não conseguia acompanhar no terreno o que acontecia no país. Uma coisa era certa: tínhamos estado à beira de um outro golpe, mas alguém o teria evitado. Alguns dias depois, não podia crer naquilo que ouvia. Tinha sido ele. Tinha saído com os seus homens e, vai-se lá saber como, tinha conseguido resolver a situação. A preocupação que eu sentia por ele cresceu em demasia e fiquei pregada ao chão. Consegui dissimular junto dos meus colegas que julgavam que éramos amigos de longa data.  Na realidade, talvez isso fosse o mais oportuno dizer sobre nós: conheci-o antes da guerra, já no exército enquanto estudava. O seu porte chamava a atenção das raparigas. Todas as que o conheciam ficavam maravilhadas com a sua forma de estar: era gracioso, idealista e,...

Vulnerável II

Imagem
Voltei a presenciá-los por algumas vezes... os pesadelos... não aconteceram todos os dias em que estive com ele, mas aconteceram. E, quando assim é, eles são violentos... Trazem a mesma violência do primeiro a que assisti. A reação dele é sempre igual: silêncio. Eu respeito-o. Entendo que não queira falar comigo, mas, mesmo assim, sinto uma urgência de o tentar amparar que não consigo evitar. Não sei se o vou encontrar em sua casa. Como tudo isto anda, acredito que não lhe seja fácil sair da unidade. De qualquer forma, levo comigo umas cervejas. São boas para desbloquear. A noite já caiu e a rua está sossegada. É uma zona residencial, por aqui o único café aberto tem duas pessoas ao balcão. Quando estou a chegar à porta do seu prédio, ouço uma voz familiar. - A senhorita está perdida? Ele, sempre com a sua graça habitual. É o que o torna tão requerido pelas mulheres. Digo-lhe sempre. - O Capitão será que pode ajudar? - O Capitão não sei, o Major talvez. - Isso... Peço-lhe desculpa, mas...