A Escolha de Ser Livre - Liberi di Scegliere
A 'ndrangheta é uma das organizações mafiosas mais poderosas do mundo e está presente nos cinco continentes. Nasceu na Reggio Calabria e mantém-se através de gerações. Ou seja, os filhos herdam a posição do pai dentro da máfia, fazendo parte de um esquema organizado e regido por leis internas onde
os descendentes pouco mais fazem do que seguir as pisadas dos pais.
Em 2011, o presidente do tribunal de menores de Reggio Calabria decidiu fazer algo que nunca havia sido feito: criar um mecanismo que permitisse aos mais novos serem "salvos" desse desse destino fatídico que, mais cedo ou mais tarde, se resumia à prisão ou à morte.
O filme "Liberi di Scegliere", disponível nalgumas plataformas (em português com o título "Filhos de 'Ndrangheta"), de 2018, conta a história de como nasceu esse programa na Reggio Calabria. O filme parte de uma história verídica, alterando o nome das personagens para proteção de identidade, e tem como protagonista o juiz Marco Lo Bianco, interpretado pelo bravíssimo Alessandro Preziosi (quem viu a versão mais recente de Sandokan é o ator que interpreta Yanez de Gomera"). O filme parte de uma ideia que me surpreendeu: permitir que os jovens que nascem no seio mafioso tenham liberdade de escolha. A ideia de que o filho de um "capo" tem, à partida, a sua vida condicionada é uma perspetiva diferente daquela que se vê habitualmente em séries e filmes. A figura de um mafioso vem acompanhada do poder, do dinheiro, dos negócios, da vida à margem da legalidade, a vida numa sociedade que não se coaduna com a sociedade da maioria. Porém, tudo isso não contempla liberdade, porta o cumprimento de um papel que é dado a priori, desenhado pela família em que se nasce. Portanto, colocar em evidência que as famílias dos mafiosos nascem e vivem presos à única realidade que conhecem é, de facto, muito interessante. Neste filme, o jovem Domenico é levado para uma comunidade de jovens, acompanhado por uma assistente social e um psicólogo. Um trabalho feito pro bono, uma vez que o Estado não providencia os recursos necessários a quem trabalha nesta área. Conta-se, assim, o início do programa Liberi di Scegliere que tem, exatamente, o objetivo de dar a oportunidade aos jovens, sempre antes de cumprirem 18 anos, de serem retirados, neste caso, da Calábria, e viverem num outro ambiente providenciado pelo Estado.
Quando o juiz Marco Lo Bianco decide afastar Domenico da Calábria, a imprensa escreve obscenidades, como que ele decreta que os jovens sejam deportados ou retirados às famílias. Também os seus colegas avisam-no que gostam muito dele e não o querem ver num caixão. A sua esposa diz-lhe "estás a envolver-te demasiado neste projeto. E estás sozinho nessa missão". No final, o juiz seguiu o que sentia e sabia que queria fazer.
No início do filme somos avisados de que este é baseado numa história verídica e isso fez-me pesquisar se este juiz existia. Vejam, no mundo de hoje em dia pareceu-me demasiado sonhador um homem ter esta ideia de que há vidas que se podem salvar se lhes for dada uma oportunidade, mesmo que esta seja afastar jovens da família e dos locais que sempre conheceram. Procurei e foi fácil de perceber que este homem existe. A personagem Marco Lo Bianco é, na realidade, o juiz Roberto di Bella, que foi presidente do tribunal de menores de Reggio Calabria. Para quem é tão cética quanto ao futuro como eu, descobrir que existem pessoas que realmente assumem a sua missão de deixar o mundo melhor do que o encontraram, emociona-me. Ainda para mais quando falamos de pessoas que trabalham num ambiente tão difícil como este em que o mais seguro seria faze o que fazem os outros: calar, cumprir o que é suposto cumprir, sem levantar grandes celeumas e não incomodar o sistema paralelo. Hoje em dia, Roberto Di Bella vive com proteção policial.
Liberdade - Um Conceito Fascinante
Não admira que a liberdade seja um dos conceitos trabalhados pelos filósofos, já que tudo contém, tornando-o fascinante. Tudo aquilo que traz a liberdade está presente em todo o filme: o seu peso, a sua leveza, a sua dureza, a sua doçura, a certeza, mas também a dúvida. Deixo-vos este pedaço do texto do filme que resume bem aquilo que é a liberdade.
Domenico: "antes era forte, agora sou fraco, antes sabia sempre o que devia fazer, agora só tenho dúvidas. Antes nem sequer me conseguia rir, agora tenho sempre vontade de chorar, antes gostava de mim, agora nem sei quem sou."
Marco Lo Bianco: "Mas, agora és livre. Podes, finalmente, escolher."
Esta dúvida proporcionada pela liberdade acompanha-nos por toda a vida. E talvez seja a dúvida que nos faça crescer, adotar defesas, formas de sobrevivência, mas também comporta o risco da decisão. Porém, penso que quanto mais formos abertos a aceitá-la, talvez consigamos prosseguir mais confiantes. É um paradoxo, mas, aos dias de hoje, parece-me que, realmente, e vida é um paradoxo. A existência humana é um paradoxo: numa só pessoa existe liberdade e prisão, tristeza e alegria, sofrimento e imunidade à dor, esquecimento e memória.
Programa Liberi di Scegliere
Com a vida que conhecem, algumas mães, viúvas ou esposas de mafiosos presos sabem que os seus filhos não vão escapar à máfia. Por isso, elas pedem proteção para os seus filhos, fazendo parte dessa mudança de vida. Ao longo dos anos, várias entidades públicas, a igreja católica e associações juntaram-se a este projeto, inclusivamente a Associazone Libera, que tem como missão a luta contra a máfia e a corrupção através de iniciativas civis, culturais e educacionais.
Em julho passado, o senado italiano aprovou, finalmente, uma lei onde o Estado dá a possibilidade a mulheres e jovens, até aos 25 anos, de beneficiarem de um programa que lhes vai permitir uma nova casa num outra cidade, uma nova escola e se, necessário, uma nova identidade. O The Guardian falou com Roberto Di Bella que mostrou o seu contentamento pela aprovação desta lei, refletindo que esta vai permitir que "as mulheres possam reconstruir as suas vidas, procurar uma nova profissão e, se quiserem mudar o seu sobrenome". O jornal britânico escreve que Di Bella viu a aprovação da lei no senado e que este se sentiu emocionado. O The Guardian refere ainda que as estimativas apontam para que, por ano, cerca de 400 crianças, que nascerem nas famílias ligadas à máfia, entrem neste programa.
Descobri que desde 2011 a 2018 (ano em que o filme é publicado), este mecanismo impulsionado por Roberto Di Bella ajudou 40 menores a sair da Calábria e a tornarem-se jovens comuns: estudam e trabalham, mudaram de cidade e construíram uma outra vida longe daquilo que era suposto serem. Pode pensar-se que 40 jovens, durante sete anos, parecem ser poucos. Mas, acreditem, neste contexto é maravilhoso. Foi possível livrar da morte ou da prisão 40 pessoas. Acreditem que se este programa tivesse contribuído para mudar uma só jovem vida, tudo teria já valido a pena.

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