Caruncho - Um Pedra no Charco
Pela primeira vez, fui este ano assistir à Noite da Literatura Europeia, que se realiza anualmente, no mês de Junho, em Lisboa. Organizada pela EUNIC Portugal, com o apoio da Representação da Comissão Europeia em Portugal, esta iniciativa gratuita dá-nos a possibilidade de conhecer obras literárias publicadas em 14 países da União Europeia. É, assim, uma ótima oportunidade para conhecer outros autores. As leituras são encenadas, com a duração de cerca 15 minutos, e acontecem em vários espaços da capital.
Um desses locais foi o Instituto Cervantes que recebeu a leitura do livro espanhol. Não tinha ouvido falar de qualquer um dos livros recitados nesta noite, mas a literatura espanhola tem vindo a suscitar o meu interesse e por sugestão de uma amiga lá fomos. A leitura foi arrebatadora, a atriz fez um excelente trabalho e fiquei com as palavras do romance na cabeça. Teria de o ler mais cedo ou mais tarde.
"Caruncho" é editado em Portugal pela Antígona e é escrito por Layla Martínez. Publicado em 2021, este romance é o primeiro da autora. Uma verdadeira pedra no charco. O enredo é ficcionado mas tem por inspiração a história da sua família materna o que torna esta obra ainda mais crua.Numa vila rural, a história é contada a duas vozes, uma opção que traz mais fluidez a este relato: avó e neta contam e recontam o passado de uma família marcada pelo franquismo, mas também pela pobreza, pela violência e pela condição inferior da mulher nesse passado.
"Esta casa é uma maldição, o meu pai amaldiçoou-nos com ela e condenou-nos a viver entre as suas paredes" (p.25)
A casa é outra das grandes protagonistas desta história uma vez que é ela que guarda todos os segredos, todas as dores, todo o peso de um passado e as consequências do presente. Talvez como todas as casas de família que perduram ao longo de décadas, conhecendo várias gerações. Aqui, as paredes falam. Se a casa é muitas vezes sinónimo de proteção aqui significa, também, uma desproteção completa.
Na história de Layla Martínez, esta casa transporta fantasmas sobre os quais não é deixada qualquer dúvida sobre a sua história, porque todos os fantasmas têm uma. A trama começa com o "desaparecimento" de uma criança da casa da família Jarabos, os patrões da casa onde trabalhava a neta, uma das vozes narradoras, mas onde já havia trabalhado a avó. O confronto de gerações face ao mesmo destino deixa-nos com a ideia de que, por vezes, se está condenado à partida apenas e só por se nascer numa família pobre onde as desgraças são perpetuadas, também, pela eterna diferença de classes. A dictomia entre pobres e ricos é aqui muito bem conseguida, sendo possível perceber a forma como isso é determinante para a formação de um ser humano assim como do seu percurso.
Na perspetiva emocional, este livro transparece de forma clara e límpida a forma como os traumas são passados de geração em geração. Tal como o caruncho que se infiltra na madeira, os traumas infiltram-se nas almas, passando de pessoa para pessoa, parecendo ser impossível fugir esse ciclo vicioso. Aliás, existe apenas uma forma de o parar: não deixando qualquer semente para o futuro, termina-se com esse passado, evitando que haja a renovação dessa família.
Este "Caruncho" está muito bem descrito, através de uma escrita livre e explícita, que quase não nos permite parar de a ler. A sua desenvoltura que usa sem pudor as palavras pesadas, torna este relato a duas vozes numa obra dura, mas comovente. O fantástico que se mistura com o real traz as devidas e pertinentes metáforas que explicam o peso daquela família.
"A velha tem razão quando diz que nesta casa a raiva nos come, mas não é porque nasçamos com algo torcido dentro de nós. Vai-se torcendo, a pouco e pouco, quando começamos a ranger os dentes." (p.79)
A condição da mulher ao longo do último século é uma das suas partes fundamentais desta obra: o casamento "arranjado", porque era assim que tinha de ser; o trabalho árduo da mulher em casa e fora para ter alguma coisa que comer, enquanto que o homem tinha liberdade para fazer o que quisesse e como o quisesse; a carência de amor que depois não se consegue colmatar, porque se o amor não nos é ensinado não o conseguimos reproduzir; o estado vigilante dos "bons costumes" imiscuído no cidadão comum, nos vizinhos, como se fossem olhos permanentes de observação de uma ditadura que dilacerou os espanhóis.
Foi interessante ter terminado de ler este livro semanas antes de por cá se voltar a falar em "mulheres conservadoras" ou lá o que é. As mulheres que consideram que o "conservadorismo" é o que vai salvar a sua condição de ser mulher ou não leram, não estudaram, não sabem o que é sofrer às mãos do domínio do homem ou então utilizam essa ideia para "objetivos" mais concretos, ou seja, são calculistas.
É por isso que é tão importante ler, colocar as nossas gerações mais novas a ler, estarmos atentos. Bem sei que não é uma missão fácil, ainda assim, pelo nosso bem e pelo bem de todos nós, temos de o fazer. Temos de colocar esta literatura na ordem do dia, discuti-la, realizarmos pontes com a nossa realidade do dia a dia. Porque, por mais que leiamos histórias que tenham acontecido há 50, 100 ou mil anos, a verdade é que é sempre possível realizarmos um paralelismo com a nossa realidade atual. Porque são histórias de pessoas. E a essência do ser humano é sempre a mesma: a busca da felicidade, a sobrevivência e o alcance daquilo que é ser livre. A História constrói-se desta essência, daqueles que lutaram através do bem ou do mal. Mas, acreditem, a essência era a mesma.
Quero com isto dizer que o conservadorismo não vai salvar essa "condição de ser mulher". A igualdade de direitos, a independência, a luta pela emancipação feminina é que irão defender aquilo que é ser mulher que, no fundo, é aquilo que é ser humano. Se têm dúvidas, leiam "Caruncho" e irão perceber melhor aquilo que vos escrevo.


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