"Aqui Não Morre Ninguém" - Campo de Batalha

Geralmente, não sou grande apreciadora de filmes de guerra... Talvez tenha gostado de títulos badalados, mas não é um género que me cative. No entanto, admito que se tenham realizados boas histórias deste género nos últimos anos. Como andei afastada do cinema, acredito que possam existir boas histórias para ver, tal como o filme "Campo de Batalha" ("Campo di Battaglia"), de 2024.

Na Festa do Cinema Italiano deste ano, que, habitualmente, decorre no mês de Abril, este filme esteve em exibição. No entanto, não me foi possível ver a sessão, mas tinha ficado curiosa, o que se explica, em parte, pelo ator que é o protagonista: Alessandro Borghi. É considerado um dos atores de referência da atualidade do cinema italiano, mas, mais do que isso, tinha visto o filme "Não sejas Mau", de 2015, ("Non Essere Cattivo), há uns meses, e tinha adorado a sua interpretação, a par da do Luca Marinelli, sobre o qual terei outras oportunidades para escrever.

Felizmente, o filme "Campo de Batalha" está em exibição em dois cinemas e pensei: pode ser uma boa forma de assinalar o meu primeiro dia de férias. Realizado por Gianni Amelio, esta história centra-se no hospital militar que recebia os soldados feridos que combatiam por Itália na Primeira Guerra Mundial. 

A Primeira Guerra Mundial, que se desenrola de 1914 a 1918, é caracterizada pela brutalidade vivida

pelos exércitos no campo de batalha. Lembro-me de que há alguns anos, penso que tenha sido na altura em que se assinalou o centenário deste primeiro conflito mundial, foram realizados alguns trabalhos de investigação e académicos sobre esta guerra. E esteve no espaço público esta certeza de que as consequências desta guerra foram devastadoras: milhões de mortos, milhões de feridos, tantos corpos esquecidos. Um conflito longo que marcou profundamente não só os países como e qualquer indivíduo e família que a tenha vivido. Tudo piorou com a proliferação de doenças e com o aparecimento da afamada "gripe espanhola". Portanto, o ponto central deste filme é duro. Sou pessoa de lágrima fácil e o primeiro pensamento que me veio à cabeça no início do filme foi: como é possível que haja pessoas que olham para a guerra como uma solução e não como um problema?

A trama do filme desenrola-se através da dicotomia personificada por dois médicos neste hospital. De um lado Stefano, também comandante desta unidade, interpretado por Gabriel Montesi, o responsável pela brutalidade das vistorias realizadas aos soldados, escolhendo aqueles estavam prontos para regressar à frente de batalha. Claro que o critério que ditava o internamento dos soldados era apertadíssimo. Se andasse e respirasse, independentemente do resto, estava pronto. Do outro lado, o médio Giulio, interpretado por Alessandro Borghi, que traz consigo um qualquer mistério. É ele que consegue evitar que alguns soldados voltem à guerra, através de um método pouco ortodoxo: provocar a doença, ainda que seja passageira e sem colocar verdadeiramente em risco a saúde do doente. Esta diferença do exercício do papel de médico é talvez o motor para compreendermos como a mesma situação pode ser vivida de forma distinta por duas pessoas devido às mais diferentes razões: contexto social, contexto político, valores, a defesa da pátria ou a defesa da vida humana. No fundo, creio que o que torna a personagem de Giulio fascinante é a forma como através da "brutalidade" traz a humanidade para um cenário dantesco. "Qui non muore nessuno", "Aqui não morre ninguém", transforma-se na frase de Giulio, parecendo que este nos traz um qualquer tipo de tranquilidade no meio de tanta dor. 

Muito evidente é, depois, a forma como a gripe espanhola se torna quase como uma protagonista da história. Como tantas vezes foi dito aquando da pandemia de COVID-19, esta foi, de facto, uma outra guerra à qual sucumbiram milhões de pessoas. Numa Europa dilacerada pela guerra não é difícil de perceber que o nível de contágio foi terrível. Este filme torna-se, assim, uma boa forma de compreendermos o que era uma pandemia no passado e como esta foi tratada, principalmente, nalgumas estruturas, como o exército. Creio que nos foi escondida muita coisa.

As interpretações são fantásticas, mas realmente Alessandro Borghi aparece como um ator muito completo que consegue materializar de uma forma única uma personagem também ela única. A sua postura, o seu comportamento, os seus gestos, as suas manias, a forma como fala. Um trabalho de construção de personagem que só alguns atores conseguem fazer. E, por isso, há que lhe dar os parabéns. 

Gostei muito do texto, da forma como o filme foi gravado, sendo uma história com ritmo e com as pausas nos momentos certos, quase que nem damos pelo tempo passar. 

E, acima de tudo, esta é uma história que nos deve fazer pensar sobre a condição humana. É certo que eu, enquanto humanista, fiquei fascinada com Giulio. Talvez por ter lido aquilo que foi a guerra colonial, por ter ouvido relatos de quem lá esteve, as atrocidades de uma guerra, talvez isso explique a forma como me emocionei com esta personagem: um médico que decidiu fazer alguma coisa por aqueles soldados moribundos. Mas, compreendo, também, ainda que seja com tristeza, a figura rígida de Stefano que incorpora a postura de quem ainda acredita que a Pátria é um qualquer valor inabalável e que as ordens existem para ser seguidas, porque só assim haverá eficácia e ordem... mesmo que o custo seja a vida humana.

O filme "Campo de Batalha" foi indicado ao Leão de Ouro do Festival de Veneza, em 2024, e é inspirado no romance "La Sfida" de Carlo Patriarca. Penso que não estará disponível em plataformas de streaming, mas espero que, em breve, isso seja possível porque é uma história que vale a pena conhecer.

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