A Democracia Está Doente e com Prognóstico Reservado
Há umas semanas que decidi afastar-me um pouco da atualidade política portuguesa pelo seu desvirtuamento que muitas vezes, e infelizmente, é coadjuvado pelo jornalismo político que se pratica diariamente. Portanto, é natural que a minha atenção sobre aquilo que é dito diariamente por líderes políticos portugueses me passe um pouco ao lado. Não, não estou a ser ermita, mas a bem da minha saúde mental decidi ser mais criteriosa sobre o que vejo e ouço e o modo como o faço. Cada vez mais tenho a sensação de que este "espaço público" atual está demasiado afastado da forma como me entendo e vejo o mundo.
Mesmo assim, ainda há certas situações que me prendem o pensamento e, talvez, ainda seja por isso que escrevo estas linhas. Na passada segunda-feira, dia 31 de Agosto, um deputado da nação do grupo parlamentar da direita populista, vulgo Chega, afirmou num vídeo publicado nas suas redes sociais que "quando o Chega chegar ao poder vai fechar a Agência Lusa porque vocês não passam de uma agenda de propaganda. Vocês são nojentos". Tenho lido algumas reflexões acerca do uso da redes sociais e do dito "espaço público", mas apenas me vêm à memória as palavras de Umberto Eco, proferidas em 2015, em Turim: "as redes sociais dão o direito da palavra a legiões de imbecis que antes falavam só na tasca, depois de beberem um copo de vinho, sem prejudicar o coletivo".
Uma das premissas de viver em Liberdade e em Democracia é, sem sombra de dúvida, a construção de uma sociedade consciente, que se vale por si mesma, com conhecimento e empática. Por isso, poderia analisar aquela afirmação de Pedro Frazão de uma forma simplista: vivemos num país livre e democrático e qualquer um de nós deve sentir-se à vontade para dizer aquilo que pensa e para mostrar a sua verdadeira essência, mesmo que seja o maior disparate do mundo. Foi, também para isso, que se fez o 25 de Abril, graças a Deus! No entanto, existem vários elementos que falham na minha premissa inicial do que é viver em Liberdade e em Democracia: a consciência da sociedade não acompanha a aplicação destes dois termos. E, é por isso, que a minha análise não pode ser simplista. Se pudesse ser simplista seria um óptimo sinal: era a prova de que estamos numa democracia forte e que sabemos aquilo que é ser livre e as suas responsabilidades. Por conseguinte, estas declarações de quem quer acabar com uma agência noticiosa quando chegar ao governo seriam um escândalo e talvez suscitasse um tumulto no espaço público: a condenação destas declarações, conversas sobre a liberdade de imprensa e de expressão, mas, mais do que isso, a maioria dos cidadãos compreenderia bem ao que vem o Chega. O seu deputado disse-o declaradamente, nas suas redes sociais: limitar a liberdade de imprensa. Ainda assim, creio que Pedro Frazão não demonstrou por completo a perversidade com que o Chega pode encarar a liberdade de imprensa da Agência Lusa caso chegue a governar. Em vez de a "fechar", o caminho poderá ser manipulá-la, infestando-a dos amigos jornalistas do Chega, dos chefes do Chega, dos editores do Chega, de administradores do Chega. Assim, será o golpe perfeito para a Agência Lusa. Mas, isto sou eu a especular, obviamente.
O grande problema dos nossos dias é que falta sempre o mais importante: a consciência e o conhecimento. Esta é uma realidade que se vê um pouco por todo o lado, influenciada pelo uso dos meios digitais, a desinformação, os influencers, o culto do individualismo e a fraca aposta na educação das gerações mais novas. Olhando para Portugal, atualmente, é fácil para mim perceber que não vai ser agora que a educação pública, a única em que acredito como motor de inclusão e de desenvolvimento social, estará no centro das políticas públicas. Afinal de contas, o atual ministério acredita que a grande reforma que vai realizar é a digitalização de exames nacionais.
Tenho pena que, de facto, nenhum jornalista tenha perguntado a Fernando Alexandre, se esta é a grande prioridade de reforma no sistema de ensino, passando à frente de questões cruciais como a desburocratização daquilo que é ser professor, a revisão de currículos de disciplinas, o regresso ao papel, o uso da inteligência artificial ou então, pasme-se!, a resolução daquilo que é básico: existir resposta para todas as famílias no ensino público e ter o número de professores necessários para lecionar. Isso sim, parece-me que seriam grandes e necessárias reformas.
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| Foto de Nathan Dumlao na Unsplash |
Numa sociedade onde não há saúde na democracia, não se sabe viver em liberdade. E, infelizmente, o jornalismo e o espaço dos media não consegue afirmar-se como, efetivamente, um pilar da democracia, já que é evidente a qualidade do jornalismo que se pratica hoje em dia ou, por vezes, dá-me a sensação de que o objetivo é despedir ministros, por exemplo. Atenção, é uma sensação. Mas, o jornalismo não se soube posicionar no advento tecnológico das redes sociais, vive na necessidade de estar sempre em "direto" e de reportar algo primeiro do que aconteça. O jornalismo sucumbiu ao capitalismo selvagem que nos rege enquanto democracia e enquanto sociedade. Mas, independentemente disso, ainda devem existir valores que se sobreponham a este vazio de conteúdo: não deixar passar aqueles que não oferecem uma solução para os problemas e que apenas os instigam para que estes se tornem ainda maiores, tão grandes, para que num futuro próximo apareçam como "os únicos capazes de manter a ordem", os tais "salvadores da Pátria". A tática do Mussolini, lembram-se? Criar o caos, para que depois se possa reinar sobre ele. É mais do que evidente que, agora, estamos a viver a primeira parte do plano: o caos, tudo é mau, tudo é feio e nada presta, como a Agência Lusa que tem uns "'jornalistazecos' de quinta categoria" e que "são uma vergonha, são vergonhosos para o país". A seguir o medo irá estabelecer-se e, depois, chega a última fase do plano.
Em suma, em qualquer país democraticamente sano, as declarações de um político que deseja fechar uma agência noticiosa no Estado seriam motivo mais do que suficiente para uma derrota desastrosa em qualquer ato eleitoral seguinte.



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