"A democracia é bela, dá-nos a liberdade até para destruí-la" - A Ascensão de Benito Mussolini

Lembro-me de que um dos meus capítulos favoritos na disciplina de História, no ensino secundário, foi o estudo sobre a ascensão dos regimes fascistas no início do século XX. Não sei bem explicar porquê, talvez me questionasse como tinha sido possível o fascismo mobilizar as massas e implementar-se. Creio que na altura percebi o mais simples: o aproveitamento da situação de vulnerabilidade de um povo, levou a que o fascismo se tivesse tornado na solução no meio do desespero.

Há vários anos que tinha deixado de ver séries e filmes com regularidade. No entanto, no início deste ano, a vida levou-me a procurar novas coisas, a fascinar-me com outras e dei por mim, novamente, a redescobrir o gosto pelas narrativas visuais. A partir de uma história descobri outra e mais outra até chegar ao conhecimento de que em 2025, a Sky tinha emitido uma série de oito episódios sobre a ascensão de Mussolini em Itália. Fiquei demasiado interessada para não a ver. Também não sei porquê, mas a figura do ditador italiano, mais do que qualquer outro, sempre me despertou curiosidade. 

A série "M, Filho do Século" (M, Figlio del Secolo) é realizada por Joe Wright com argumento de Stefano Bises e Davide Serino, tendo como base o romance biográfico, com o mesmo título, escrito por Antonio Scurati (2018). O prólogo do primeiro episódio colocou-me logo em sentido: o carácter manipulador de Benito Mussolini mostra-se de forma plena e inequívoca. "Sigam-me nesta jornada, até vocês vão amar-me, até vocês se tornarão fascistas", diz Mussolini que nos olha diretamente através da lente da câmara.

Mais do que uma série biográfica estes oito episódios mostram-nos que a história repete-se. A transformação de Mussolini de um militante de esquerda para o criador do fascismo está muito bem demonstrada. Primeiro, a vergonha que o cobre depois de ser rejeitado pelos socialistas, seguida da importância do dinheiro e do financiamento daqueles que criticava no passado até ao seu carácter manipulador movido por uma ambição desmedida em ser maior. Mussolini é apresentado como um homem que sente o tempo antes que este aconteça. Todo este percurso explica a construção de uma personalidade centralizadora e vaidosa que se soube apoiar  na violência, com a criação dos Camisas Negras. Aliás, a série é bastante competente na representação dessa violência de rua que depois se transforma, com Mussolini no poder, numa espécie de violência legalizada e institucionalizada.

"Transformamos o medo em ódio"

Outro dos pontos fundamentais deste percurso é a forma como Mussolini soube utilizar a imprensa a seu favor. Através do jornal que detinha, primeiro, disseminou as suas ideias depois deu corpo ao fascismo como ideologia, chegando ao ponto crucial da jornada: a descredibilização contínua das instituições do Estado. Numa Itália fustigada pelos efeitos da primeira guerra mundial, onde a pobreza e a doença proliferavam numa sociedade dilacerada, com frases curtas, diretas e simples, Mussolini falou ao "coração das pessoas". 

O ser humano é reativo ao medo e essa reação é muitas vezes descontrolada. É esse prazer pelo caos que joga a favor de Benito: quanto maior a desordem, maior é a necessidade de ordem. Por isso, primeiro há que instigar o medo para depois o transformar em ódio. Nada melhor do que fazê-lo através do seu instrumento predileto: escrever. Ainda no campo da comunicação com as massas, destaco uma afirmação magistral de Mussolini: "é tudo ficção, mas para se acreditar tem de ter algo de verdade". Esta simples frase recorda-me uma das célebres conferências de imprensa, no período do PREC, do então Major Diniz de Almeida que cita o poeta Aleixo: "P'ra mentira ser segura / E atingir profundidade, / Tem que trazer à mistura / Qualquer coisa de verdade."

Quase as mesmas palavras que têm, exatamente, o mesmo significado. Até agora, é assim tão difícil de perceber que, atualmente, estamos a viver exatamente este processo coadjuvado não só por pela imprensa como também pelas redes sociais?

A Figura da Ordem Criada por Mussolini

Na série "M." existem vários momentos que decorrem no parlamento italiano. Um deles marcou-me por ser tão claro: na altivez do seu discurso, Mussolini afirma que as pessoas não querem saber de interpretações filosóficas da liberdade ou da democracia - "eu ouço aquilo que o povo diz na rua, e o que povo precisa como de água para a boca é de ver os problemas resolvidos!". Portanto, ele apresenta-se como o herói nacional, como o salvador daquela pátria, dizendo que aquilo que o país quer dele é "ordem, eficiência e segurança". 

É certo que as circunstâncias também permitiram a sua ascensão, nomeadamente com o rei Vittorio Emanuele III, um homem claramente derrotado e fraco em coragem, que permite a Mussolini de se manter no cargo depois de alguns casos violentos, relacionados com a violência dos Camisas Negras.

A série não deixa de abordar outros temas, como a forma como Mussolini consegue a conivência da Igreja Católica para a sua ascensão ao poder, partindo para a criação do mote "Deus, Pátria, Família". É bem sabida a não crença de Mussolini em Deus, as várias mulheres e filhos que teve fora do casamento. Mas, a verdade, é que fez o que foi necessário para garantir o apoio que precisava. E consegui-o. Destaco, também, o assassínio de Giacomo Matteotti, líder da bancada comunista, pelos Camisas Negras, as lutas dos operários com os grandes latifundiários e industriais (são eles que inicialmente começam a financiar Mussolini na sua viragem "política") ou a "violação do inviolável", como a alteração da lei eleitoral. É muito interessante notar a própria evolução de Mussolini que no último episódio apresenta-se consumido pelo seu egocentrismo, com um carácter puramente narcisista.

"A democracia é bela, dá-nos a liberdade até para destruí-la"

Ao longo da série encontrei vários elementos e pormenores que me cativaram, como a forma original de inclusão de registos de arquivo. O trabalho de edição está fantástico... Por vezes, é como se conseguissem colocar os atores em registos videográficos e fotográficos de época. 

A banda sonora é extraordinária: criada por Tom Rowlands, membro dos The Chemical Brothers. O contraste da música eletrónica com o ambiente histórico é genial. Aliás, a ideia é que a banda sonora imprimisse ritmo a uma série que fala de história e este é para mim um dos pontos mais bem conseguidos de todo este trabalho. 

Aqui são também referidas duas pinturas de Caravaggio e que em muito têm que ver com Mussolini e a sua ascensão: a Vocação e São Mateus, atualmente na "Igreja de São Luís dos Franceses", em Roma, e a "David com a Cabeça de Golias" que pode ser vista na Galleria Borghese.

Na minha opinião, outro ponto da série muito bem executado é a escolha de levar Mussolini a explicar ao espectador o que está a fazer. Ou seja, a personagem está na ação da história, mas depois deixa comentários diretamente para a câmara de filmar, destacando elementos, fazendo comentários ou até a explicar o que irá executar para produzir determinado efeito. Não se sabe ao certo se a frase "a democracia é bela, dá-nos a liberdade até para destruí-la" foi proferida por Mussolini, esta é referida num episódio, exatamente numa dessas ocasiões "de partilha com o espectador". É, talvez, uma das frases mais reveladoras de toda a história. 

A opção narrativa em tornar o espectador "cúmplice" de Mussolini, demonstra como o público também contribuiu para a ascensão de Mussolini. Ou seja, não se está apenas a contar uma história ao público, desta forma também se lhe diz que ele é parte desta manipulação. Em certos momentos esta "proximidade" de Mussolini chega a ser desconfortável, como se o facto de estar a seguir o seu guião eu estivesse a ser conivente com ele. Penso que, em certa medida, esta é mais uma forma de nos dizer que o nosso silêncio é também responsável pela ascensão destes líderes e destes ideais. Somos todos responsáveis.

A Interpretação de Luca Marinelli como Mussolini

Foi no início deste ano que descobri o ator Luca Marinelli pelo seu papel como Milton, no filme "Una Questione Privata", de 2017. A personagem de Milton é contida, com um mundo de emoções que se desenrola dentro de si e com uma expressividade comedida. É por isso que a interpretação de Luca Marinelli é tão bela: a sua contenção é interrompida apenas em alguns momentos essenciais da história. O livro com o mesmo título escrito por Beppe Fenoglio dá origem a este filme. Eu li-o antes de ver a obra cinematográfica e qual não é a minha surpresa quando vejo que o ator protagonista era tal e qual como eu tinha imaginado Milton na minha cabeça. E isso nunca me tinha acontecido. 

https://www.fanpage.it/spettacolo/serie-tv/luca-marinelli-non-ha-usato-protesi-
per-interpretare-mussolini-come-ha-cambiato-il-suo-aspetto-per-la-serie-m/
Quando vejo este mesmo ator a interpretar Mussolini fiquei surpreendida. Aqui, a expansividade, o arrojo e a bestialidade de Mussolini é interpretada de uma forma exímia. Este foi um trabalho que requereu muito do ator. Por exemplo, no aspeto físico, Luca Marinelli teve de engordar o necessário para ficar próximo do ditador italiano, sem esquecer todo o trabalho de caracterização que está espetacularmente bem feito. Além da interpretação, da enfâse e das emoções que Marinelli transmite tão bem, vêm os gestos, a forma de falar, os "tiques" de Mussolini, como por exemplo a maneira como anda ou segura na cintura das calças.

Perguntaram a Luca Marinelli qual tinha sido a reação das pessoas ao saber que iria interpretar Mussolini. Luca Marinelli e a sua família são antifascistas e o ator contou esta simples história: quando recebeu este convite, partilhou-o com a avó. Obteve cinco segundos de um pesado silêncio seguidos da pergunta "porquê?". Ele disse-lhe que é uma forma de manter vivo o passado para que este não seja esquecido. A série foi apresentada em Roma e ela viu o resultado final, dizendo, depois, ao neto que este tinha feito um bom trabalho. 

Sim, a avó de Luca Marinelli tem toda a razão, aliás, diria até que todos fizeram um excelente, digno e necessário trabalho para que se perceba, finalmente, para onde querem que caminhemos. As tais "perceções", as informações não confirmadas, a não verificação de informação, a disseminação de desinformação e de mentiras, a escolha pela opinião e não pelos factos, a falta de conhecimento vivemo-las todos os dias. Mas, esta série reforça a certeza de que nada do que vivemos hoje em dia é novo, é apenas recriado.

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