A Era do Enxovalho - As Redes Sociais são Um Barómetro?
Quando as redes sociais surgiram, com a consequente adesão da população, pensou-se que aí estava o barómetro certo para medir a opinião, as preferências e as tendências dos cidadãos. Ao início parecia ser uma forma legítima de saber o que as pessoas viam, do que gostavam e até de registar algumas queixas ou sugestões.
O "ambiente" que hoje se vive nas redes sociais é completamente diferente do que existia há dez anos. A toxicidade é real. Numa publicação com 20 comentários, 18 são a enxovalhar. Não falo de criticar, falo mesmo de enxovalhar. A crítica é uma palavra com origem no grego, kritiké, que significa juízo. Ou seja, poderá ser um juízo bom ou mau. É fácil de entender que o meu juízo sobre um filme pode ser bom, dizendo que o argumento estava bem escrito e os atores forem sublimes. No entanto, o meu juízo pode ser mau, no sentido em que posso escrever que o argumento do filme apresentava várias falhas, o enredo não era cativante e o elenco não tinha sido o mais adequado. Isto é criticar.
O verbo enxovalhar comporta vários significados: ofender, desonrar, injuriar, sujar. Neste caso, o enxovalho de um filme seria, facilmente, que o argumento é uma valente merda, os produtores e realizadores só andam à mama do Estado e os atores são umas carinhas bonitas que se devem ter deitado com alguém para ser-lhes atribuído o papel.
Percebem o que quero dizer?
Hoje em dia, as caixas de comentários nas redes sociais, sejam quais foram, estão repletas de enxovalho. Onde outrora às vezes nem sequer havia um comentário agora apenas aparecem insultos, ofensas e mentiras. De onde vem este movimento?
Há uns meses que a TV Amadora retomou uma rubrica denominada "Discurso Direto", cuja primeira temporada foi lançada no decorrer do ano 2019. Esta tinha surgido com forma de celebrar os 40 anos da cidade da Amadora e consistia em entrevistas com pessoas do concelho que se tinham notabilizado na sua áreas profissional. Este ano, 2026, considerámos que seria interessante realizar uma segunda leva de entrevistas. Os temas abordados têm que ver com a carreira profissional e, com grande destaque, a ligação que estas pessoas têm ou tiveram à cidade da Amadora: as suas memórias, as suas histórias, a importância que a cidade tem ou teve no seu percurso. É, talvez, o nosso contributo para que se compreenda a cidade da Amadora como um território igual a todos os outros, sendo, quem sabe, uma oportunidade para combater o estigma que a Amadora tem... principalmente, para quem está fora da cidade.
Ao início não houve grandes "movimentações", mas logo vieram os tais comentários do enxovalho: se o entrevistado diz que gosta da Amadora, aquilo que se escreve é: "gosta porque não vive cá, a cidade está uma miséria, é só lixo e baratas, isto já foi bom, agora é só bandidagem, só imigrantes, é o fim do fundo". Este tipo de comentários já se estava a tornar habitual em reportagens que estivessem relacionadas com atividades culturais, entrevistas com políticos ou notícias sobre novas medidas a implementar na cidade pelas autarquias (câmara municipal e freguesias). Mas, confesso, que nunca pensei que estes comentários de enxovalho viessem a ser publicados em entrevistas com pessoas que sentem orgulho em ser amadorenses.
É certo que há muitos perfis falsos. Vejo isso todos os dias, já que as redes sociais da TV Amadora ficaram enxameadas deste tipo de perfis antes da campanha para as eleições autárquicas de 2025. Esses perfis falsos ficaram e todos sabemos que o algoritmo gosta de enxovalhos. Um enxovalho leva a outro e assim consecutivamente, criando e alimentando um ciclo vicioso para fazer acreditar aos utilizadores das redes sociais que "é tudo uma desgraça, é tudo corrupção, estamos em permanente perigo e o mundo está prestes a acabar." O medo funciona como motor para a interação digital, mas também para construir a sensação de que vivemos, realmente, no meio da "selva". Pânico geral leva à cedência do controlo nas mãos de apenas alguns. É uma técnica infalível, que está a regressar em força, igual à que foi utilizada na instauração de qualquer sistema autocrático que este mundo já teve. Apesar de ser uma repetição, estamos a ir por esse mesmo caminho.
Apesar de nunca ter atribuído às redes sociais essa função de barómetro, é inevitável não me questionar sobre esta alteração de "comportamento" nas redes sociais. A agressividade imprensa numa série de comentários representa aquilo que as pessoas realmente pensam? A forma como os perfis interagem com as páginas sofreu uma mudança tão abrupta. No entanto, quanto mais se lê sobre estes movimentos nas redes sociais mais se percebe que é necessário estar atento. Se dedicarmos algum tempo a esta questão compreendemos uma coisa muito simples, uma máxima de hoje em dia: para se fazer ouvir só é preciso gritar... e de preferência gritar a enxovalhar. Se a mensagem do enxovalho é uma verdade ou uma mentira isso já não interessa nada. O que interessa é fazer barulho. Hoje em dia é assim que se comunica. Bem ou mal o que interessa é que se grite.
Este texto não é mais do que uma reflexão sobre o "barulho" das redes sociais no sentido em que cada vez mais acredito na minha premissa de que os comportamentos da maioria da população não são iguais à maioria dos comentários de enxovalho que se escrevem. É verdade que podem ser um motor de influência e poderemos viver as consequências disso num futuro próximo. Por isso, é cada vez mais essencial sair do nosso mundo de quatro paredes, conhecer quem está ao nosso redor, abrir horizontes, ler mais, questionar, estar atento aos perfis falsos, procurar informação confirmada e verificada. O enxovalho tem de ser questionado, sempre, para que não sejamos meras marionetas de quem nos quer manietar para reinar de forma absoluta, alterando a sociedade em que nasci para regressar a uma outra que eu pensei, por muito tempo, que estava confinada somente ao passado.
Imagem: Camilo Jimenez, Unsplash



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