Cartas Amarelas - As Consequências da Liberdade
O filme "Cartas Amarelas" parte de um acontecimento inesperado: um grupo de académicos é suspenso
da sua atividade enquanto professores numa universidade. Um desses professores, Aziz, é, também, dramaturgo e é casado com a atriz Derya, com carreira sólida e reconhecida no meio artístico. Também ela será afastada da sua atividade. A razão para estas demissões prende-se com o facto de o governo os considerar "apoiantes da guerra e difusores do terrorismo", depois da apresentação de uma peça de teatro interpretada por Derya e escrita por Aziz. A partir daí a trama centra-se no casal que, com uma filha adolescente, vê-se obrigado a mudar de cidade e de vida. Outrora reconhecidos nos seus meios profissionais, rapidamente passam para o desconhecimento e para as dificuldades do quotidiano, perdendo a casa e regressando à casa da mãe de Aziz.
Além do grande conflito de contexto do filme - a perseguição que ambos protagonistas sofrem por questionarem o governo - a história demonstra o conflito interno da família e como este se vai tornando cada vez mais maior com o passar do tempo. Essa escala do conflito interno explica, posteriormente, o ponto de ruptura entre as personagens que é, no fundo, a consequência das suas ações e escolhas. Um dos pontos mais claros deste filme é que, de facto, todas as nossas tomadas de posição trazem consequências: boas ou más, comportam mudanças inevitáveis.
O cenário que descrevo parece "meio distópico", mas está tão bem contado que é fácil de compreender que esta ficção pode estar demasiado perto da realidade: a perda de autonomia e de criatividade, a autocensura, o instinto de sobrevivência, o controlo no que se escreve, no que se publica, no passado de posições públicas, tantas vezes expresso nas nossas redes sociais. Todos estes factores deixam-nos com a questão: e se fosse eu? Se fosse eu no papel de Aziz ou de Derya? Demos como dado adquirido que podemos dizer e escrever o que pensamos, criticar a justiça, o poder, o governo e até temos liberdade para dizer e escrever disparates. E se, um dia, isso deixa de ser assim? Como reagiríamos à perda do que julgamos estar adquirido para sempre? Essa é a principal questão com que ficamos depois de ver este filme que, no final de contas, nos oferece dois exemplos de como nos poderíamos comportar face a este cenário de perda e de mudança imposta.
Ilker Çatak - O Realizador
"Cartas Amarelas" é realizado por Ilker Çatak, alemão de ascendência turca. E é muito curioso perceber como a sua origem o influencia enquanto realizador de cinema. "Cartas Amarelas" é escrito e interpretado em turco, feito com atores turcos e filmado na Alemanha. Mas, porque razão, Çatak grava este filme no país que acolheu a sua família? Na tela, em alguns momentos do filme, é-nos apresentado em legenda, que surge como um separador, cobrindo todo o ecrã, "Berlim, como Ankara" e "Hamburgo com Istambul". Um efeito que nunca tinha visto antes, mas que cumpre o objetivo do realizador: demonstrar que aquela história foi escrita como se fosse ambientada na Turquia, mas que na realidade se poderia passar em qualquer país do mundo. Claramente, aquilo que o realizador nos demonstra é que "Berlim, como Ankara" poderia ser "Berlim, como Lisboa" ou "Berlim, como Roma". É esse efeito de proximidade que faz com que as tais perguntas que referenciem fiquem a pairar, ainda mais tempo, na nossa mente depois do filme acabar.
O "Teatro Salva o Mundo"
O título do filme remete para a cor das cartas que os académicos receberam com a notícia da sua suspensão. É um título perfeito, são elas que iniciam todo este caminho que nos leva a questionar os limites que nos poderão impor à nossa afirmação pessoal, mas também os limites que impomos a nós mesmos ou aos quais sucumbimos. Além de todas estas questões, fica, para mim, o bonito idealismo de Aziz que este expressa na frase "o teatro salva o mundo". Quando ele a profere há risos, alguns de desdém outros de alguma condescendência. Mas, ele acredita mesmo no que diz. E esse é um dos momentos mais bonitos desta história: a arte pode ter um poder de afirmação e de defesa de valores. Como se fosse ela que nos desperta para algo ou que nos impõe uma reflexão sobre um assunto. Tal como acontece com o cinema, tal como acontece com este filme. Chega a ser poético que Ilker Çatak tenha vencido, com este filme, o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, em Fevereiro deste ano. O realizador alemão de ascendência turca conquistou este prémio num país onde uma região decidiu dar a vitória à extrema-direita, nas eleições deste mês. Talvez seja muito importante que os alemães vissem este filme, assim como todo o mundo.
Nota: O filme "Cartas Amarelas" ainda está em exibição nos cinemas portugueses. Aproveitem!


Comentários
Enviar um comentário