Cartas Amarelas - As Consequências da Liberdade

O filme "Cartas Amarelas" parte de um acontecimento inesperado: um grupo de académicos é suspenso
da sua atividade enquanto professores numa universidade. Um desses professores, Aziz, é, também, dramaturgo e é casado com a atriz Derya, com carreira sólida e reconhecida no meio artístico. Também ela será afastada da sua atividade. A razão para estas demissões prende-se com o facto de o governo os considerar "apoiantes da guerra e difusores do terrorismo", depois da apresentação de uma peça de teatro interpretada por Derya e escrita por Aziz. A partir daí a trama centra-se no casal que, com uma filha adolescente, vê-se obrigado a mudar de cidade e de vida. Outrora reconhecidos nos seus meios profissionais, rapidamente passam para o desconhecimento e para as dificuldades do quotidiano, perdendo a casa e regressando à casa da mãe de Aziz.

O ritmo da história é perfeito, com um texto que corresponde a uma ação que leva o espectador a nunca perspetivar o final. Esse é o grande fator que me levou a considerar esta como uma história soberba. Acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos sem nunca perceber muito bem como é que a história vai terminar ou sequer se realmente tem um fim. Além disso, as questões que o filme levanta são muito pertinentes, principalmente nos tempos atuais. Por um lado, coloca em evidência o valor liberdade, as suas diferentes formas e maneiras de como pode ser entendida e vivida. Por outro lado, coloca em perspetiva o peso e as consequências do contexto em que se está inserido, de como este delimita a nossa ação ou nos encaminha para uma mudança de posição ou se, pelo contrário, torna uma posição ainda mais vincada. Agradou-me a forma como as personagens foram construídas e o caminho que tomaram, parecendo que partem de uma total concordância, ainda que com algumas pistas de que não seria sempre assim, para uma total oposição de comportamento.

Além do grande conflito de contexto do filme - a perseguição que ambos protagonistas sofrem por questionarem o governo - a história demonstra o conflito interno da família e como este se vai tornando cada vez mais maior com o passar do tempo. Essa escala do conflito interno explica, posteriormente, o ponto de ruptura entre as personagens que é, no fundo, a consequência das suas ações e escolhas. Um dos pontos mais claros deste filme é que, de facto, todas as nossas tomadas de posição trazem consequências: boas ou más, comportam mudanças inevitáveis.

O cenário que descrevo parece "meio distópico", mas está tão bem contado que é fácil de compreender que esta ficção pode estar demasiado perto da realidade: a perda de autonomia e de criatividade, a autocensura, o instinto de sobrevivência, o controlo no que se escreve, no que se publica, no passado de posições públicas, tantas vezes expresso nas nossas redes sociais. Todos estes factores deixam-nos com a questão: e se fosse eu? Se fosse eu no papel de Aziz ou de Derya? Demos como dado adquirido que podemos dizer e escrever o que pensamos, criticar a justiça, o poder, o governo e até temos liberdade para dizer e escrever disparates. E se, um dia, isso deixa de ser assim? Como reagiríamos à perda do que julgamos estar adquirido para sempre? Essa é a principal questão com que ficamos depois de ver este filme que, no final de contas, nos oferece dois exemplos de como nos poderíamos comportar face a este cenário de perda e de mudança imposta. 

Ilker Çatak - O Realizador

"Cartas Amarelas" é realizado por Ilker Çatak, alemão de ascendência turca. E é muito curioso perceber como a sua origem o influencia enquanto realizador de cinema. "Cartas Amarelas" é escrito e interpretado em turco, feito com atores turcos e filmado na Alemanha. Mas, porque razão, Çatak grava este filme no país que acolheu a sua família? Na tela, em alguns momentos do filme, é-nos apresentado em legenda, que surge como um separador, cobrindo todo o ecrã, "Berlim, como Ankara" e "Hamburgo com Istambul". Um efeito que nunca tinha visto antes, mas que cumpre o objetivo do realizador: demonstrar que aquela história foi escrita como se fosse ambientada na Turquia, mas que na realidade se poderia passar em qualquer país do mundo. Claramente, aquilo que o realizador nos demonstra é que "Berlim, como Ankara" poderia ser "Berlim, como Lisboa" ou "Berlim, como Roma". É esse efeito de proximidade que faz com que as tais perguntas que referenciem fiquem a pairar, ainda mais tempo, na nossa mente depois do filme acabar.

O "Teatro Salva o Mundo"

O título do filme remete para a cor das cartas que os académicos receberam com a notícia da sua suspensão. É um título perfeito, são elas que iniciam todo este caminho que nos leva a questionar os limites que nos poderão impor à nossa afirmação pessoal, mas também os limites que impomos a nós mesmos ou aos quais sucumbimos. Além de todas estas questões, fica, para mim, o bonito idealismo de Aziz que este expressa na frase "o teatro salva o mundo". Quando ele a profere há risos, alguns de desdém outros de alguma condescendência. Mas, ele acredita mesmo no que diz. E esse é um dos momentos mais bonitos desta história: a arte pode ter um poder de afirmação e de defesa de valores. Como se fosse ela que nos desperta para algo ou que nos impõe uma reflexão sobre um assunto. Tal como acontece com o cinema, tal como acontece com este filme. Chega a ser poético que Ilker Çatak tenha vencido, com este filme, o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim, em Fevereiro deste ano. O realizador alemão de ascendência turca conquistou este prémio num país onde uma região decidiu dar a vitória à extrema-direita, nas eleições deste mês. Talvez seja muito importante que os alemães vissem este filme, assim como todo o mundo.

Nota: O filme "Cartas Amarelas" ainda está em exibição nos cinemas portugueses. Aproveitem!

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