A Luz de Joaquín Sorolla

A obra distingue-se pela forma central com que está exposta na sala. É certo que as suas dimensões chamam à atenção, 2,22 metros por 3 metros, sendo impossível desviar o olhar. Mas, quem visita exposições sabe que essa não é característica fundamental para que uma pintura fique marcada na memória. Houve alguma coisa a mais que me fez ficar a olhar para a pintura "Cosiendo la Vela" de Joaquín Sorolla, na Galeria Internacional de Arte Moderna de Veneza, na Ca' Pesaro.

Confesso que não conhecia a obra do espanhol Joaquín Sorolla e, por isso, este primeiro impacto foi muito fascinante. Tal qual como quando conhecemos uma pessoa que nos deixa uma boa impressão e sentimos que queremos voltar a encontrá-la e conhecê-la melhor. A minha relação com a pintura é feita dessa forma quase esotérica que se estabelece num laço de sensibilidade que, na maioria das vezes, não consigo explicar de forma muito racional. Ou seja, o interesse que possa ter por um artista não se justifica por ser um nome mundialmente conhecido ou de grande relevo para as artes. Tem de ter alguma coisa mais.

Na tela "Cosiendo la Vela" foi a luz que me cativou ao primeiro olhar. A forma magistral com que o pintor conseguiu tão bem representar a incidência na luz naquela cena foi o que verdadeiramente me chamou a atenção. É claro que quando parei em frente a esta obra observei outros pormenores: como o tamanho da vela, as figuras das mulheres tão bem representadas e a seriedade com que o homem olha para o tecido. Não me passou despercebida a forma cândida com que as mulheres olham para a vela, quase como se fosse um prazer realizar aquele trabalho, tão bem captado na imagem dos gestos pintada por Sorolla. Nesta obra, encontramos muito bem representada aquilo que a entreajuda de uma comunidade: homens e mulheres costuram ou reparam esta vela, todos contribuem para um objetivo comum. As bonitas cores das flores que completam o cenário, fazendo-nos adivinhar que talvez ali fosse primavera, a porta aberta, ao fundo, transportando-nos para a certeza de que aquela vela estará, em breve, lá fora, no barco e no mar. Creio que a percepção da vela é engrandecida pelo uso da perspetiva por Sorolla. Estando de frente para a pintura é como se também nós fizéssemos parte daquele cenário, quase que sentimos o tecido nos nossos pés. Estamos, afinal, na ponta da vela.

Mas, afinal, quem é Joaquín Sorolla, o meu novo amigo? Sorolla é espanhol, nasceu em Valência, a 27 de Fevereiro de 1863. É considerado como um dos mestres do Luminismo Espanhol, sendo um dos pintores mais conhecidos do impressionismo. O Luminismo espanhol é um estilo pictórico onde a luz e o seu brilho são protagonistas de uma pintura. Através da sua sensibilidade, Sorolla conseguiu pintar a dita "luz mediterrânica", imortalizando momentos do quotidiano através do seu génio nas telas. Uma parte do trabalho do pintor está relacionada com a escolha do branco como cor primordial, o que também acontece nesta pintura exposta em Veneza.

"Cosiendo la Vela" data de 1896 e é um exemplo daquilo que notabilizou Sorolla. Muitas das suas obras nascem do mar e da sua vida circundante. A pintura foi premiada com a Medalha de Ouro da VII Exposição Internacional de Munique, em 1897 e com a Grande Medalha de Estado da Áustria na Exposição Internacional de Viena. 

A enciclopédia Britânica diz-nos que Sorolla nasceu numa família muito pobre e que ficou órfão aos dois anos. No entanto, mostrou desde cedo um talento inato para a pintura o que lhe permitiu ingressar, aos quinze anos, na Academia de San Carlos em Valência. Fico sempre impressionada com a capacidade de expressar um talento, sendo-se tão jovem. Em Madrid, é possível visitar o Museu Sorolla, a casa-museu do pintor, onde se encontram várias obras do seu acervo assim como objetos pessoais.

Pelo que li, Sorolla não é ainda dos pintores mais conhecidos do público português. Talvez isso explique o meu desconhecimento deste génio até Junho deste ano.

Depois deste poético encontro, que me remontou para o mar e para a vida humilde de quem exerceu e exerce este trabalho, fui tendo outros encontros que me recordavam esta pintura. Primeiro, nessa mesma viagem a Veneza, os pescadores em Burano que, ao final do dia, quando calor permite, estão a arranjar as suas redes de pesca. Depois, pelos dias passados na Ericeira onde o mar e a vida que ele permite está sempre no olhar e ainda na minha leitura atual de "Os Pescadores" de Raúl Brandão. E não é que descobri que a partir de 15 de Setembro, o Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado vai receber a obra de Sorolla "Pescadoras Valenciadas", no âmbito da programação cultural da Mostra Espanha 2026?

Concerteza, que temos encontro marcado para Setembro, querido Sorolla.

Comentários

Mensagens populares