As Pessoas em Situação de Sem-Abrigo são Pessoas!

Em 2016, Marcelo Rebelo de Sousa, então eleito presidente da república, anunciava uma meta para o seu mandato: que não mais houvesse pessoas em situação sem-abrigo, ou seja, erradicar este problema das ruas portuguesas. Passaram dez anos e com esta década veio a pandemia, a especulação imobiliária, que levou ao aumento exponencial e asfixiante tanto das rendas como dos preços das casas, o mundo enfrenta uma nova crise de energia e as ideias fascistas e de direita populista proliferam na Europa coadjuvadas por o atual presidente norte-americano que dá o aval, sem regras, às grandes tecnológicas para desenvolveram e implementarem, ainda mais, a inteligência artificial. 

Nenhuma destas "novidades" trouxe uma solução para aquilo que Marcelo Rebelo de Sousa queria: não existirem sem-abrigo. Pior do que isso: esse problema piorou e muito. Segundo os dados divulgados no mês de Dezembro do ano passado, o número de pessoas a viver nas ruas aumentou 260%. No curto resumo que realizei, parece-me evidente que nada tenha acontecido que tivesse ditado o contrário destes números. Com a liberalização do mercado de arrendamento, que está prestes a sair reforçada com a iminente aprovação definitiva da Lei das Rendas pelo atual parlamento, a probabilidade de esta situação piorar, contando ainda som o brutal aumento do custo de vida que não para, é certa. 

O aumento das pessoas que vivem na rua caminha a par do aumento da falta de empatia do ser humano.
É certo e sabido que o egoísmo do Homem tem vindo a crescer impulsionado pelo capitalismo selvagem que vivemos: tudo em função do lucro e do dinheiro, perdendo-se, ao mesmo tempo, a noção de justiça social. É fácil de compreender que deixamos de nos colocar nos pés do outro se nos é incutido que "tudo depende de ti mesmo", gerando os debates sobre a tal "meritocracia". Não se consegue ter uma vida melhor porque não se quer ou não se trabalha. As oportunidades são iguais para todos e vem daí o chorrilho de ideias feitas de quem não conhece outra realidade além da sua e a dos seus pares.

Ontem, na RTP, foi emitida uma reportagem acerca de um projeto levado a cabo pela Câmara Municipal do Porto: um espaço de pernoita para pessoas em situação de sem-abrigo, com 120 camas. Concorde-se, ou não, é uma tentativa de dar algum suporte a quem vive na rua. A uma das beneficiárias deste projeto, e que entrevistaram, servindo de fio condutor para contar esta história, atribuíram-lhe o nome de Maria. Viveu com um marido mais de trinta anos que lhe batia e depois foi viver com os pais que, entretanto, morreram. Maria foi viver para a rua há cerca de um ano. Agora, durante o dia está num jardim onde diz ela que a "olham com desdém". Infelizmente, não me surpreende que assim seja. Num mundo em que se vive centrado em si mesmo há dificuldade em compreender que o mundo é feito de tudo: abundância e pobreza, egoísmo e empatia, violência e paz e desdém e compaixão.

A Falha do Estado Social

Durante muito tempo, acreditei que vivia num país em que o Estado Social funcionava e que seria, precisamente, em casos como o de Maria que este atuava. Pensava que o Estado Social atuava lá atrás, já na altura em que Maria era vítima de violência doméstica. Não tendo atuado aí, poderia ter feito alguma coisa quando ela foi viver com os pais, num trabalho integrado para a sua autonomização. Mas, também falhou aí. O Estado poderia, ao menos, ter atuado quando os pais de Maria morreram e evitar que esta fosse viver para a rua. Mas, mais uma vez, não o fez. O que quero com isto dizer é que as pessoas sem-abrigo existem pela sua história, que tem contornos próprios e pessoais, mas que também se explica pela ausência de ação do Estado Social. O desdém com que olham para Maria, que passa o dia no parque, é exemplificativo da desumanização do ser humano, no sentido em que o importante é o seu eu em confronto com o outro. Olha-se para a pessoa sem-abrigo, atrevo-me a dizer, até com alguma repugnância, desabafando interiormente "que horror". No desdém e na repugnância fica difícil de encontrar espaço no nosso olhar para percebermos que ali está uma pessoa. Ali, está uma pessoa que não tem estrutura para se reerguer sozinha nem forma, nem instrumentos para o fazer. 

Talvez seja eu que não esteja preparada para viver no mundo atual. Há poucas coisas das quais eu tenho a certeza, mas uma delas é que nenhum de nós sabe o que nos acontecerá amanhã. Por muito dinheiro e conforto que tenhamos agora.

Não se Fazem Desaparecer Pessoas, Ajudam-se.

Não consigo disfarçar a minha descrença no mundo quando vejo as pessoas se erguem para apontar o dedo, para vilipendiar, para ofender, para "terminar" com as pessoas sem-abrigo. Exigem que estas desapareçam da sua rua, da sua porta, da sua vista. Independentemente, do caminho que tomem, o que importa é que elas desapareçam. Talvez esta ânsia de fazer com que desapareçam pessoas venha de outro sinal destes tempos: quer-se tudo para ontem. Exige-se que tudo se resolva rapidamente, exige-se que se limpe, imediatamente! Olha-se para o outro como o lixo que está ao lado do caixote ou as folhas que caem das árvores em pleno outono e que sujam o carro que temos estacionado: "que horror! Como é possível não se limpar estas folhas! É para isto que pago impostos? Ah! Que incompetentes!" Para alguns de vós eu sei que custa a compreender, mas as pessoas em situação de sem-abrigo são pessoas. Como tu, como eu: são pessoas. Como tal, a sua situação não pode ser tratada como o lixo ou, pelo menos, não o deve ser: não pode ser limpa do dia para a noite. O que diriam se fossem animais abandonados que vagueiam pelas ruas? Também os quereriam limpar da vossa rua? Para isso pode-se chamar o canil municipal e até aí eles poderão ficar. Muito diferente ao que acontece com estas pessoas que, na maioria das vezes, não há acolhimento disponível.

Vejo com tristeza que esses que gritam que os sem-abrigo têm desaparecer não exijam, com a mesma veemência, a existência de um Estado Social, que nos proteja quando enfrentamos situações para as quais não estamos preparados ou que defendam respostas duradoras e efetivas: uma ação integrada do Estado Central, que reúna várias áreas, saúde, apoio psicossocial, emprego, para que, com essa "frente de trabalho", seja possível encontrar uma solução estruturada para a vida das pessoas.

Terminando, tal como na reportagem da RTP, é explicada a razão que levou Maria a pedir para não mostrar a sua identidade: ocultava o rosto porque tinha vergonha de que os filhos, a nora e os netos soubessem da sua situação. Aqui está outra coisa que eu sei: não nascemos todos com as mesmas oportunidades, com o mesmo suporte, iguais como uma tábua em branco. A quem vive num pedestal, lamento dizer-vos: não é assim que funciona. Compreendo que como não sabem isso, se atrevam a olhar com desdém para o outro, mas seria um melhor sinal se conseguissem demonstrar alguma compaixão, mesmo que fosse apenas e só com um olhar.

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Imagem: Fotografia de Jon Tyson na Unsplash

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